Natureza
Pinheiro-manso das Boticas
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Pinheiro-manso
Pinus pinea L.
“Supõe-se que a sua área de distribuição natural engloba toda a região mediterrânica, desde a Península Ibérica até ao Próximo Oriente, excluindo-se o Norte de África. Vegeta ainda até à China e expandiu-se muito por repovoamento artificial, essencialmente em Espanha, Itália e Portugal. De acordo com dados recolhidos pela FAO, a área mundial está dividida em 9% em Portugal, 75% em Espanha, 1% em França, 5% em Itália e 9% na Turquia, estando a restante distribuída por diversos outros países. Em Portugal, encontra-se em todo o país, sob a forma de povoamentos puros, mistos, bosquetes e como ornamental, maioritariamente a Sul do rio Tejo, com destaque para o distrito de Setúbal.
A espécie apresenta a particularidade de não hibridar com nenhuma outra. É uma espécie de comportamento xerófilo, termófilo e bastante heliófilo. Poderá vegetar até altitudes de 1000 m. Suporta temperaturas desde os 20°C até aos 41°C, muito embora possam surgir danos pelo frio aos 12°C. Requer temperaturas médias do mês mais frio superiores a 0ºC e temperaturas médias do mês mais quente até 20 24°C. É uma essência adaptada a climas mediterrânicos e portanto com seca estival. Poderá tolerar em algumas estações, os 250 300 mm de precipitação anual, apesar de o normal é usufruir de 400 800 mm. O ótimo ecológico parece situar se entre os 500 e 800 mm de precipitação anual. Poderá tolerar desde 2 até 6 meses de secura, conforme a edafoclimatologia da estação. É uma espécie que se impõe ao Pinus pinaster nos lugares secos e sufocantes, onde este último é suscetível aos intensos ataques de insetos. Suporta os ventos marítimos costeiros (muito embora bastante menos que o Pinus pinaster e o Pinus halepensis) e resiste pouco à neve, a qual é de escassa ocorrência na sua área de distribuição natural. Resiste a ventos bastante fortes sem desenraizar nem partir. É uma espécie vulnerável à contaminação atmosférica. De um modo geral, é mesmo considerado indiferente às características químicas do solo. Apresenta evidentes exigências quanto ao arejamento do solo, sendo contrariamente muito pouco exigente em nutrientes. Adapta-se melhor a solos bem arejados, profundos e frescos, que apresentem textura franco arenosa de reação ácida e com o lençol freático pouco profundo (1-2 m). Pode surgir em solos não excessivamente compactos, não muito húmidos nem excessivamente delgados. Registou se a presença desta espécie em solos com pH desde 4 a 9, o que revela a sua tolerância química. Resiste à presença do calcário, chegando a suportar até cerca de 15% de calcário ativo e cerca de 50% de calcário total. É relativamente mais resistente a pragas e doenças, comparativamente a outras essências mediterrânicas. Regenera por semente. Inicia a produção de pinhas aos 8-10 anos. Frutifica com abundância decorridos 15 a 20 anos. Alcança as máximas produções aos 40-50 anos. É uma árvore que pode atingir os 25 m de altura. A copa é ampla e profunda, encimando um tronco curto, dividido em vários ramos grossos ascendentes quase desde a base. A área explorada pelas raízes é cerca de 8 a 52 vezes maior que a área de projeção horizontal de copa, o que leva a concluir que estes sistemas radiculares suportam bem solos delgados. O crescimento é lento e a longevidade é de 150 a 200 anos. No entanto, foram localizados a título excecional, exemplares de 400-500 anos. A quantidade pinhas produzidas aumenta até aos 100 anos, começando a partir daí a decrescer progressivamente. A produção anual mediana está estimada em 250 pinhas por árvore, havendo casos de produções unitárias de 1000 a 2000 pinhas por árvore. A produção de resina está estimada em média para 2-3 Kg/incisão. Ainda que muito apreciada pela indústria de perfumaria, este produto é considerado marginal. É geralmente encontrada em consociação com o Pinus pinaster Ait., o Pinus halepensis Miller, o Quercus ilex L. e muito raramente, o Quercus suber L.
A madeira do pinheiro manso apresenta um cerne distinto e abundante de tom castanho-avermelhado ou vermelho intenso, borne branco rosado ou dourado. A densidade é de 550 kg/m3, obtida a 12% de humidade. É de fácil serragem, dificultada no entanto pela eventual presença de grandes nodosidades. Tem utilizações na construção de estruturas e de carpintaria, mobiliário, construção naval, revestimento de pisos, aglomerados de fibras e de partículas, travessas, paletas e carroçaria. Muito embora não seja atualmente uma madeira tão utilizada na construção naval, continua a ser preferida nos pequenos estaleiros artesanais, quando são necessárias peças curvas para as quilhas dos navios e outras peças que tenham de estar em contacto com a água. É uma essência florestal da qual se extrai resina. Tendo em consideração, muito embora, o reduzido rendimento de pinhal em madeira e resina, assiste se na atualidade a uma valorização económica da pinha. Além do interesse económico que esta espécie patrocina, desempenha igualmente um papel fundamental de conservação e proteção no ecossistema mediterrânico da região a Sul do Tejo. Esta essência constitui se como uma alternativa à colonização de solos florestais de pendente, quando a escassa fertilidade ou o escasso volume útil não permitem o adequado crescimento da azinheira e do sobreiro.”
in “Jardim Botânico”, Universidade de Trás-os-Montes e Alto Douro

