“Estrada Real”, património

O traçado da antiga estrada real entre Braga e Viana do Castelo, com as suas múltiplas derivações por caminhos antigos conforme descrito por Rosa de Araújo, é a base e o motivo desta acção de musealização.
A primeira fase da musealização da “Estrada Real” contempla o património edificado nas imediações da Rua Medieval num trajecto de aproximadamente 4km. Arrancando da Estrada Velha e atravessando o Regato de São Paio na Ponte Medieval das Boticas, o roteiro proposto segue em direcção ao Antigo Cruzeiro Paroquial de Capareiros, à Capela do Espírito Santo e à Ponte de Vale, terminando no cruzamento com a Rua do Refujão que dá à Ponte Românica das Alvas e à Ponte Romana de Fragoso.

“Seguia pelas imediações da capelinha de Nossa Senhora das Neves (onde se representava tradicionalmente, no dia da festa, o auto da Floripes) e seguia pelo leito da estrada que, por ter meandros, foi recentemente rectificada por outro local.
Passava o regato dos Reis Magos por uma ponte antiga, destruída e substituida pela que hoje se vê onde, dantes, havia um alagadouro próximo, um marco da Casa de Bragança e uma nora.
Subia — como ainda hoje sobe a estrada — indo passar pela frente da capelinha de Nossa Senhora da Guia (umas alminhas na frontaria de uma velha casa, já quase rentes ao chão), e ia pelo leito da actual estrada até um larguinho onde ainda hoje existem umas ferrarias (km. 5).
Abandonava então a actual estrada, passava junto da Estação dos caminhos de ferro de Barroselas e ia passar no lugar do Sião, ladeando e contornando o monte da Forca, de Capareiros, de torva recordação, se que não haja memória de alguém ter sido ali justiçado.
No lugar de Sião ainda se aponta o lugar onde existiu a casa dos Barretos, antiga ferraria, onde nasceu o célebre Antoninho, que foi enforcado em Viana por matador do lavrador apuliano João Saraiva, no alto do Monte do Faro, freguesia de Anha.
Ia passar ao lugar dos Fornos, onde encontrava a estrada que vinha das Alvas.
Seguia pela extremidade ocidental do lugar da Feira de Capareiros (a tradicional Feira do Couto, como é ainda chamada) e metia ao lugar das Boticas, passando junto da capelinha do Espírito Santo.
Dali, por um caminho ainda calçado à velha e tradicional maneira, portuguesa ia passar à Ponte dos Frades.
Esta ponte, que uma cheia danificou, derrubando parte da sua estrutura superior, é um belo exemplar romântico, lembrando gravura inglesa antiga.
Passa por ela o regato da Fraga que, poucos metros depois, desagua no Neiva. Ê de um só arco, de 13 aduelas, de abertura 3,50 m e de altura 2,00 m.
O pavimento, em albardão, tem na margem direita, encravado junto ao muro e quase a sumir-se na vegetação, um marco onde lê, não sem dificuldade, a indicação: DE BRA/GA AN/NO D/ 1666.
Na outra margem, ao lume da água, outro marco com o letreiro: DO COUTO/DE/CARV.º/1666.
Dividia o regato o antiquíssimo Couto de Carvoeiro e lá estão ainda os marcos indicativos.
A estrada subia, empedrada, passando por um casarão ainda chamado Lagar dos Frades, destinado, desde tempos imemoriais, à produção de azeite. Há muito, porém, que está abandonado, e servindo, cremos, de arrecadação e moradia de família humilde.
Dali até encontrar a estrada actual, precisamente onde nasce a estrada que leva a Durrães, a «estrada velha» atravessa pinheirais desertos, caminho bem lôbrego ainda hoje, apenas animado pelo marulhar das águas da ribeira da Neiva, que, aqui e ali, se vê lucilar por entre a ramaria.
Novamente a estrada actual se sobrepõe ao leito da antiga quase até ao Cruzeiro de Algares, muito célebre noutros tempos, pois que era aí um dos pontos onde os ladrões assaltavam os viandantes.
No cruzeiro de Algares havia bifurcação: o caminho que cortava à direita, levava à ponte das Tábuas, já assim chamada no século XVI segundo se vê no Tombo da freguesia de Balugães, e era a estrada de Barcelos.
O que seguia em frente (impraticável na sua maior parte) ia sair a S. Bento, freguesia de Balugães, junto da ermida, onde ainda não há muitos anos, existia um grande telheiro antigo, junto de uma taberna, tudo de cunho arcaico.
Local pitoresco, com «alminhas», cruzeiro e ponto obrigatório de reunião de almocreves e viajantes. Ainda nos recordamos dele no seu aspecto vetusto antes das modificações e alindamentos que sofreu nestes últimos vinte anos.
A estrada antiga, decâmetros abaixo, rompe para a nossa direita e vai passar pela ponte da Caridade, sobre o regato do Naboínho, de um só e pequeno arco, de albardão, românica pura. Continua a largura de três metros. Arco de volta inteira, perdido no meio de densa vegetação.
O velho caminho segue até à capelinha minúscula da Senhora da Cadabosa, vai ao Regadouro, passa em Frijão (freguesia de Ardegão), seguindo pelo Poço Negro, já em Panque, seguindo à célebre ponte de Anhel para onde endireitava à Ponte do Prado.”
in “Caminhos Velhos e Pontes de Viana e Ponte de Lima”, Rosa de Araújo (1962)