Património
Alminhas das Boticas
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“A “encomendação das almas” corresponde a um costume ancestral hoje em desaparecimento nas freguesias do Minho. A instituição desta prática religiosa pela Igreja tinha por objectivo manter e avivar a fé na existência do Purgatório como fonte de purificação espiritual e temporária do Homem.
Acreditar no Purgatório é um dos dogmas do cristianismo, reafirmado em diversos Concílios, nomeadamente no de Trento, em 1563. Actualmente alguns teólogos põem em causa este lugar de purificação.
Naquele Concílio foi dada aos fiéis a possibilidade de, em vivos, sufragarem as almas dos que morreram por intermédio de actos e preces. Missas, orações, esmolas, penitências e sacrifícios são formas aceites e incentivados pelo Concílio para se atingir aquele.
Levando á prática estes prop6sitos espirituais, em que a fé assume um lugar de primordial valor, grupos de homens prontificaram-se, desde há séculos, a envolver todas as comunidades nesta comunhão de orações.
Nas noites da Quaresma, quando o silêncio se torna sagrado e as pessoas dormem ou reflectem sobre a vida, certos homens cantavam e rezavam de terra em terra os cânticos quaresmais, recolhendo ao mesmo tempo donativos que serviam para mandar rezar missas pelas “benditas almas do Purgatório”.
O “botar” ou “encomendar” as almas foi um costume usado no Vale do Neiva, havendo ainda quem se recorde, como contaram, em 1985, o Ti Manuel dos Campos e a Ti Albertina de Tregosa: havia um homem já velho, mas muito devoto das “almas”, que ia de noite para um ponto do monte e em voz alta dizia: Ö Almas, pelas benditas «Almas do Purgatório» — Pai Nosso…»
Depois o sino tocava nove badaladas e rezava-se.
Contou em 1992, Rosa Barbosa, “Avó da Quinta”, de Portela de Suzã:
«- Havia um velhinho, dos lados de Vila Fria, que vinha por aqui e em voz alta e em diversos lugares, fazia um alerta, dizendo:
Alerta, alerta
A Vida é curta
E a morte é certa.»
No botar das “almas” o sino da torre da igreja dava nove badaladas, começando ás nove menos um quarto da noite.”
in “Memórias do nosso povo – Para uma etnografia do Vale do Neiva”, Manuel Delfim Pereira



